Agro

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Soja: o Brasil começa uma nova disputa — exportar o grão ou industrializá-lo aqui. Uma análise publicada hoje mostra que o país caminha para produzir quase 180 milhões de toneladas de soja em 2026, enquanto a capacidade instalada de processamento de oleaginosas deve alcançar 82,6 milhões de toneladas/ano, cerca de 17% acima de 2022. O movimento está sendo puxado por aproximadamente R$ 5,9 bilhões em investimentos anunciados para ampliar esmagamento e produção de óleo, farelo e biodiesel.

Essa pauta é muito boa porque existe uma mudança econômica por trás dela: o Brasil continua sendo uma potência exportadora de matéria-prima, mas começa a aumentar a disputa pelo valor agregado dentro do próprio país. Em vez de simplesmente mandar soja para fora, existe incentivo crescente para transformá-la aqui em farelo, óleo e combustível.

E o início da nova safra está encontrando um problema: água. O plantio da soja 2026/27 já começou, mas a falta de umidade restringe o avanço em Mato Grosso. Ao mesmo tempo, Chicago operava em queda nesta quarta-feira, com o mercado esperando novos sinais das relações comerciais entre Estados Unidos e China.

A carne bovina está vivendo uma situação bem interessante

Aqui encontrei uma das histórias econômicas mais importantes do agro neste momento.

A China estabeleceu uma cota para a carne brasileira e aplica uma tarifa de 55% aos volumes que ultrapassam o limite. O Brasil já consumiu sua cota de 2026, e o Uruguai autorizou o uso de parte de seu saldo pelo Brasil. Só que existe um detalhe fundamental: a transferência ainda depende da concordância chinesa.

Segundo estimativas citadas hoje, o saldo uruguaio poderia representar espaço para aproximadamente 80 mil toneladas adicionais de carne brasileira, equivalentes potencialmente a algo próximo de 400 mil cabeças.

O problema é estrutural. Para 2027, a cota brasileira será de 1,128 milhão de toneladas, apenas cerca de 22 mil toneladas acima da de 2026. Representantes da indústria alertam que, dependendo do ritmo dos embarques, ela poderia ser preenchida já entre março e abril.

Isso deixa uma questão muito interessante para o blog: o Brasil é extremamente competitivo na produção de carne, mas uma decisão comercial de seu maior comprador consegue alterar toda a dinâmica do setor.

Café: atenção especial porque aqui toca diretamente Minas Gerais

Hoje o arábica chegou a negociar próximo das mínimas de três meses, pressionado pela perspectiva de maior oferta global, exportações brasileiras e condições climáticas até agora favoráveis à safra brasileira de 2027.

Mas houve uma virada durante o pregão.

O contrato dezembro/26 terminou em 275,90 cents/lb, alta de 1,3%, após um movimento de correção técnica e cobertura de posições vendidas. Os estoques certificados continuam historicamente baixos, enquanto o mercado acompanha as chuvas, as floradas brasileiras e o risco relacionado ao El Niño.

E tem uma história agrícola ainda mais interessante: algumas regiões brasileiras estão apresentando florada precoce. Isso pode antecipar parte da próxima safra, mas múltiplas floradas também podem resultar em maturação desigual, aumentando a dificuldade para preservar a qualidade do café.

Na área acompanhada pela Cooxupé, a colheita atual já está praticamente encerrada, chegando a 98,6%.

Tem um risco menos chamativo, mas economicamente enorme: fertilizantes

O mercado de fertilizantes está novamente sob pressão. Restrições chinesas envolvendo fosfatos, limitações russas em nitrogenados e tensões geopolíticas estão contribuindo para preços maiores, justamente quando produtores brasileiros se preparam para a safra 2026/27

O governo afirma que não há risco imediato de faltar fertilizantes ou diesel e informou um acordo com o Marrocos envolvendo 3,8 milhões de toneladas de fertilizante fosfatado.

Isso não significa que o problema desapareceu. Disponibilidade e preço são coisas diferentes. Pode haver produto disponível e, ainda assim, aumento significativo do custo de produção.

E aí fertilizante caro + diesel + juros + clima começam a conversar entre si. Para quem olha o agro como investimento, essa combinação importa bastante.


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